Notícias

Ezídio Pinheiro: história viva do movimento sindical

  

Ezídio Vanelli Pinheiro é uma das poucas pessoas que pode ser chamada de “História Viva do Movimento Sindical dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais – MSTTR”. Ele se considera um homem de muita sorte porque viveu e ainda vive grande parte da história da FETAG e do próprio movimento sindical. Presidiu a FETAG de 1983-1986; 1989-1994 e 2003-2007.

     Há alguns dias, visitou a sede da FETAR-RS, na Rua Voluntários da Pátria, ex-sede da FETAG, onde viveu grandes momentos de liderança sindical. “Para mim, essa casa, representa tudo. Aqui, na Galeria Santa Catharina, há uma história rica para se contar. O auditório, as salas, enfim, foi um palco de inúmeras batalhas com incontáveis vitórias. E é exatamente isso que me deixa esperançoso de que esse momento difícil que atravessamos será superado. Eu dizia há pouco, aos companheiros da direção da FETAR (Nelson, Denilson, Gabriel, Poletto, Milton e Vanderly) que estão nesta luta, que precisam acreditar. O trabalhador vai assumir isso também. É impossível que a Reforma Trabalhista o deixará desamparado. Por outro lado, se tivermos força, daqui de baixo, vão acontecer as mudanças”, projetou.

     Pinheiro reforça que é necessário aproveitar a tecnologia, muito embora seja difícil a comunicação chegar lá no campo. “Eu acredito numa virada se o trabalhador conseguir se mobilizar. É improvável o sindicato realizar um trabalho se o associado não estiver próximo. Essas medidas nefastas do governo aproximarão o trabalhador de sua entidade. No momento em que não houver direitos para os trabalhadores e ninguém para atendê-los, caso dos sindicatos, eles enfrentarão ainda mais dificuldades. Eles procurarão suas entidades de classe. Então, o caminho é a comunicação. É ir a campo, buscar individualmente ou de forma coletiva, por meio de encontros, a adesão do trabalhador nesta luta”, aponta.

     Assim como a reforma trabalhista, a da Previdência Social da mesma forma é preocupante. O ex-dirigente recorda quantas viagens foram feitas de ônibus (72h ida e volta) a Brasília, inclusive de um grupo de mulheres organizadas chegar na FETAG e afirmar que também queria seus direitos. Tanto lutaram que conseguiram a aposentadoria. “Ficamos 51 dias dentro de uma sala do INSS e só saímos depois que fora aprovada a primeira aposentadoria para uma mulher. Uma coisa foi aprovar a lei, a outra o recebimento efetivo do benefício da Previdência Social”, conta.

     Hoje, enfatiza Pinheiro, se vê o Congresso Nacional sem moral e ainda tirando os direitos das pessoas, os quais foram conquistados com muita luta e sacrifício. “O País está mal não é por causa dos trabalhadores, mas sim pelos desvios, pelos roubos e pelas quadrilhas, que estão levando o dinheiro da previdência. Preocupa muito na área da reforma trabalhista a diferença entre o campo e a cidade. Na cidade, temos 30, 40, assalariados dentro de uma mesma empresa. Ao contrário do campo, onde para se buscar um assalariado pode-se percorrer longas distâncias. Agora, com a nova lei, o patrão vai dizer: a negociação é essa e tu assinas aqui. Então, na área rural, o trabalhador tem muito a perder. Mas, a FETAR está aí preparada. Eu cheguei aqui em um momento bom em que a direção estava reunida e buscando saídas para enfrentar os grandes desafios pela frente”, enfatizou.

     PRIMEIRA CONQUISTA

  Ainda, quando jovem, lembra Pinheiro, lá no município de Frederico Westphalen, onde nasceu, ele participava da Frente Agrária Gaúcha (FAG), entidade que foi uma das precursoras do Sindicato dos Trabalhadores Rurais – STR. Em 1970, assumiu pela primeira vez a presidência do STR de Frederico Westphalen. “Percebo, com clareza, o antes e o depois do sindicalismo. Apesar de a FETAG ser jovem, com mais de cinco décadas de existência, muita coisa ainda será conquistada ao longo do tempo. Sou da época em que o agricultor não tinha nada e acompanhei o primeiro beneficio que chegou ao trabalhador: a aposentadoria de meio salário mínimo aos homens com 65 anos de idade. Foi uma conquista muito grande, porque meio salário mínimo, naquele tempo, representava muito”, justifica.

     Em 1980, Pinheiro chegou à vice-presidência da FETAG em Porto Alegre. “Uma coisa que percebi é que o número de sindicatos filiados aumentou com o tempo. No começo, a FETAG tinha, no seu quadro social, o homem como chefe de família, que era visto como o único associado. Nessa década, a grande virada ocorreu com a luta da agricultora, que até então não era reconhecida ou sequer respeitada como trabalhadora. Começou, então, um movimento muito importante: a força da mulher trabalhadora rural”, recorda.

    Em sua opinião, o que mais lhe marcou foi o trabalho conjunto com as mulheres trabalhadoras rurais. Atualmente, mais de 50% dos associados aos STR’s são mulheres aposentadas e mulheres jovens, que vieram fortalecer o movimento sindical. A partir da multiplicação da força da FETAG, criaram-se novos caminhos e mobilizações, buscando e reivindicando direitos para o bem do agricultor. O trabalhador passou a acreditar mais em seu sindicato, que teve uma força de mobilização sem precedentes. Eles estavam conscientes de que não existiria democracia e direitos se apenas esperassem por um dirigente sindical, mas sim ir com eles. Os trabalhadores foram às ruas e conseguiram. “Agora é necessário voltar às ruas”, alerta o experiente Ezídio Vanelli Pinheiro.

Assessoria de Imprensa – 22/08/2017 – Luiz Boaz